Sonho Semântico

Sonhei que as palavras eram corpos. E que os significados eram almas. Sonhei que tinha viajado para o mundo dos significados. Lá não existiam palavras, apenas significados. Sonhei que lá era o "Nosso Lar" das palavras. A todo momento, os significados tentavam entrar em contato com as palavras para "encorporar" em alguma palavra e, aos poucos, conquistar os cérebros humanos.

No sonho, os significados desejavam se libertar pelas palavras. Buscavam mergulhar e se deleitar dentro das mentes que pensavam com palavras. No sonho, os significados só queriam influenciar, se fazer presentes na cabeça dos seres humanos. Eles queriam se multiplicar e conquistar todas as mentes do mundo. Queriam existir para todos. Quanto mais cérebros o significado visitava, maior era a satisfação e o prazer existencial dele.

Sonhei que os significados eram pedaços de força sem características dizíveis. Mas vou tentar sugeri-los com algumas palavras e defini-los em duas categorias: grandes e pequenos. Os significados menores eram mais definidos, valiosos, raros, pesados, fortes, impactantes. Viajavam por poucas mentes humanas. Concentravam uma grande quantidade de energia. Alvejavam a mente dos poetas, dos escritores, dos filósofos, pois estes lhes atendiam com mais atenção, precisão e complacência. Já os significados maiores eram mais "rodados", haviam viajado bastante pelas cabeças terrestres. Eram frequentemente solicitados pelos homens. Eram populares, de fácil acessibilidade, elásticos, contagiantes, leves e genéricos. Tinha menos energia acumulada. E se sujeitavam a qualquer "chamado" terrestre para manter suas influências sobre as massas.

Sonhei que um significado esbarrou em mim e me sugeriu uma viagem ao planalto da Poesia. Não era fácil chegar lá. Era preciso viajar anos-luz pela estrada da linguagem e escalar a montanha do pensamento. Foi o lugar mais incrível que visitei. No sonho, o planalto da Poesia era uma verdadeira orgia. Somente lá os significados se encostavam sem pudor e transavam desenfreadamente entre si. O êxito de seus contatos rendiam-lhes orgasmos mágicos. Lá mesmo, os significados davam à luz novos "significadozinhos" mínimos, valiosíssimos e nunca antes solicitados pelo mundo real.

Sonhei que estes significados raríssimos e minúsculos não podiam visitar as mentes humanas através de uma ou várias palavras. Observei que alguns destes significados só podiam "descer" para o mundo através de uma complexa combinação de palavras. Sonhei com significados tão raros que nenhum filósofo, escritor, poeta ou robô seria capaz de apresentá-los aos mortais. No planalto da Poesia, avistei o nascimento de um significadozinho. Sonhei que me aproximei e participei do trabalho de parto. Sonhei que peguei o significadozinho com a mão. Sonhei que a certeza de estar com o significado mais valioso do momento ultrapassava o sonho. Eu segurei aquele grão incandescente, aquela ogiva significativa que perfurava a palma da minha mão com o peso da singularidade de sua luz.

1 comentários:

Pedro Sansei disse...

Sua escrita se parece muito com Friedrich Nietzsche, e seus pensamentos também!! sou seu fã cara!! tudo de bom! continue assim... indo além

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