Ensaio sobre o artista

O artista pertence à classe dos desclassificados. Tenta ter moral mesmo sendo assumidamente imoral. Ser artista é uma alternativa de vida. Você pode ser alguém ou pode ser artista. Ser artista é carregar a glória delirante de ser tudo e sustentar o peso prático de ser nada. O artista não é melhor nem pior que ninguém. É artista.

A permissividade rege o artista. O artista é a represenção física da palavra "Sim". É natural do artista testar limites. Colocar extremos à prova. Influenciar, ser influenciado; corromper, ser corrompido; perverter e ser pervertido. É do artista desbanalizar o banal. Pra ele, viver é mais desgastante, tenso, pesado. O artista precisa de energia dobrada pois gasta energia em dobro. Além de manter-se atento com tudo, o artista está sempre atento com o "nada".

O artista faz arte porque não tem tempo a perder com outra coisa. Ao contrário do que muitos pensam, o artista comumente é prático. Aliás, há uma série de prejulgamentos em torno do artista. Muitos acham que os artistas são pessoas mais ingênuas. Mas o artista é tudo, menos ingênuo. O artista é a malícia em carne e osso.

O artista é um espírito vivo. Ele é médium da sua própria entidade. Ele é capaz de resolver um problema pensando no que outra pessoa (que pode resolver o problema) faria se estivesse no lugar dele. O artista não apenas analisa e conhece pessoas. Quando convém, ele manifesta as outras pessoas nele próprio. O artista é mais louco que os loucos de hospício porque não admite ser chamado de louco e ainda tenta convencer o mundo inteiro de que sua loucura tem mais razão do que as outras razões. O artista quer desabrochar; quer se vingar. Se vingar de quem o chamou de louco. O artista quer vingança.

Artistas são cobaias da existência, cobaias da vida, cobaias de si. O artista não vive a regra. Ele flerta com a regra. Joga com a regra o tempo inteiro. Mantém um amor platônico com a regra. Mantém-se à margem da regra e se alimenta desta distância. O artista flui pela trangressão. Seu tempo é outro. No fundo, porém, o artista deseja a regra. Sabe que a regra é o seu bem mais precioso. O artista vive em crise porque vive da crise, se alimenta de crise. Pro artista, o conforto é extremamente desconfortável. O artista não tem paz. E não sabe viver em paz. O artista é o anjo caído. É o pastor do questionamento. É o advogado do contra em qualquer circunstância.

O artista sempre cria algo da margem. Nunca cria algo do centro. Entretanto, ele faz questão de convencer o centro com sua margem. Artista não se comunica, artista transa. Artista não observa, ele estupra. Quando um artista compreende algo, ele exorcisa algo. O artista tem uma postura promíscua perante à vida. Ser artista é ser promíscuo no sentido mais libertário da palavra. O artista é o instrumento que a Vida usa pra se expressar. É o pretexto que os deuses encontram para manifestar suas facetas. É o argumento que a existência tem para justificar suas contradições. O artista não é iluminado. Ele ilumina. O artista é um aglomerado de vida, um nódulo de vivacidade dessa teia objetiva. O artista é um acidente sistêmico. O artista é imortal porque a Vida não morre. Ele nasce na medida em que a Vida transborda.

2 comentários:

Roberto Axe disse...

Cara, parabéns! Ótima definição de artista [algo difícil de definir com palavras]. Irretocável!

Pablo Seciliano De Paula disse...

Talvez eu ainda tenha oportunidade de opinar sobre algumas coisas, mais quero faze-las sem ser chato, quero faze-las falando e so me sentiria a vontade pra falar a maneira como vc descreve com alguem que se descreve assim

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