Coisas do racismo

Você não é preso se chamar alguém de preto. Você é preso se fizer disso um insulto. Eu posso chamar meu amigo de preto quando eu bem entender. Isso é um problema entre eu e meu amigo. Nenhum terceiro tem o direito de engendrar um racismo na minha relação de amizade. O racismo tem isso: ele existe somente para quem o vê.

Na época da faculdade, uma professora quis interromper uma discussão construtiva que havia começado na sala. Ela alegou que o assunto (racismo) era “delicado” e era “como pisar em ovos”. Mas como assim é “delicado”, é “pisar em ovos”? Dizer isso é considerar uma possível fragilidade de alguma das partes envolvidas na discussão. E isto sim é racismo. Falei isso diretamente pra professora e a primeira coisa que ela disse foi: “Olha, você não pode me acusar de racismo, o meu marido é negro”. Respondi algo do tipo: “Dane-se que o seu marido é negro. Se eu levar isso em consideração, estarei sendo racista igual a senhora”.

Racista a gente identifica pelo seu pudor excessivo; pela sua necessidade de se explicar; pelo seu silêncio. Eles estão aí, casados com pessoas de raças diferentes, se defendendo com argumentos aparentemente coerentes, fortalecendo o grito de um racismo mudo e crônico.

O racismo é assim: se você cogitar mentalmente a possibilidade de estar sendo racista, você já foi racista. O racismo é uma arma que dispara em nossa cara se ousarmos simplesmente olhar pra ela. É uma maldição instantânea. Ao contrário dos males comuns, você não precisa acreditar no racismo para ser racista. Basta uma incerteza qualquer escondida no fundo de sua cabeça, uma duvidazinha ridícula e inconsciente, para o racismo roubar sua alma na velocidade da luz. (E isso serve pra homofobia, xenofobia, etc.) Na realidade, considerar a existência do racismo já nos torna racistas.

O racismo é uma palavra estranha porque (ao contrário da maioria) ela não tem um “lado positivo”. Mas porque não? Teoricamente, racismo é uma palavra que sugere a diferenciação das raças. Portanto, racismo pode sugerir uma diferenciação hierárquica de raças (o que é crime), mas também pode sugerir uma diferenciação não-hierárquica de raças (o que além de legal, seria interessante). Gostaria que algum mestre em Letras me explicasse, etimologicamente, por que a palavra “racismo” não pode sugerir uma diferenciação respeitosa das características raciais? Recuso-me a acreditar que todo racismo é crime. Onde está escrito que o sufixo “ismo” do racismo implica em algo necessariamente negativo para as raças?

Se nenhum professor de Letras conseguir me provar o contrário, acho que deveríamos rever o significado dessa palavrinha medonha. Talvez estejamos sendo preconceituosos com o racismo. Acredito que a conotação negativa da palavra apodreceu a palavra inteira depois da Segunda Guerra. E nós deixamos por isso mesmo. Se racismo é uma palavra tão venenosa, talvez a única saída seja iniciar uma campanha para positivá-la. Com um slogan do tipo: "Sou racista de verdade. Eu respeito todas as raças". Acho que essa é única forma de atacar o racismo sem ser envenenado por ele. Se a palavra foi amaldiçoada pelo nazismo, abençoemos-a.

1 comentários:

Mônica Bittencourt disse...

Eu fazia uma peça em que a gente usava a palavra "homossexualismo". No meio da temporada alguém nos disse que o sufixo "ismo" queria dizer doença e que deveríamos usar "homossexualidade". Por via das dúvidas mudamos. Se realmente "ismo" quer dizer doença, racismo seria alguma coisa como a "doença da raça"...

O racismo realmente é uma doença, que nos toma por completo a partir de uma nesga de pensamento. Devia ter vacina.

Postar um comentário