A agonia dos livros

Se existe um lugar que melhor represente a atmosfera da palavra, esse lugar é a livraria. A livraria é um ambiente confortável porque, normalmente, a grande quantidade de livros cria uma acústica local – o que reprime a reverberação das vozes. É um lugar silencioso também porque se presume que ali existam pessoas lendo, concentradas, absortas. Mas a livraria não costuma ser silenciosa só por isso. As pessoas se calam dentro da livraria porque ali há uma grande concentração de conhecimento, sabedoria e experiência de todas as partes do mundo. Milhares de pensadores estão lá dentro. Prontos pra dizerem algo a quem quiser ouvi-los. E isso é o bastante pra intimidar quem entra ali.

Os livros oferecem o que você quiser. Basta curiosidade pra querê-los. Com alguns reais, você pode entrar nas tramas de Dostoiévski, tomar um chá com Clarice, discutir com Sócrates, receber conselhos de executivos milionários, conhecer todos os povos, todos os países, os 1001 filmes não sei o quê, os 1001 não sei o que lá. Parece banal, mas ter acesso à leitura é extraordinário. A livraria é a casa das informações mais relevantes do mundo. É um tesouro de histórias e discursos teóricos que influenciam as pessoas a transformarem nosso mundo prático. É onde temos acesso a um lugar superior. (Aquele “lugar” que fica “atrás” das palavras, sabe?) A atmosfera das livrarias nos faz compreender esse universo claramente.

Uma vez publicados, os livros ganham vida própria. Estão vinculados ao autor, mas não pertencem mais a ele. São de quem ler. Na livraria, numa certa sintonia, é possível ouvir nitidamente os livros conversando entre si. Discordando, bebendo vinhos, fumando charutos, viajando pelo mundo, debatendo sobre política. Basta caminharmos em meio às prateleiras para percebermos que os livros fazem de tudo pra chamar nossa atenção. Uns berram pra serem lidos. Alguns esperneiam, ficam de joelhos. Os mais sérios nos chamam pelo nome. Outros assoviam, derrubam o livro do lado. Todos eles desejam nos contar segredos íntimos ao pé de nossos ouvidos. Querem praticar o motivo de sua existência. Imploram, de várias formas, para alguém libertar suas verdades. As prateleiras são arquibancadas de livros ansiosos. A verdade (e o que vou dizer agora é um grande segredo) é que só existe um motivo que faça um livro não querer chamar a sua atenção: É quando o próprio livro julga que você não é interessante o suficiente pra ganhar o prazer de lê-lo.

1 comentários:

Dalila Giesta disse...

Perfeito. Livraria, um dos melhores lugares do universo.

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