Palavras ao crime

O crime sempre está associado à novidade. Burlar a Lei requer malícia, informação atualizada. Desse ponto de vista, o crime é uma arte. O crime quer atenção e consegue. Consegue porque está sempre na mídia. Porque, no fundo, são as notícias sobre crimes que nos tiram do tédio cotidiano. O crime, portanto, é espontâneo e sempre mais autêntico que a previsibilidade da obediência à Lei. O crime é feito uma criança armada numa sala cheia de adultos. É a ignorância em ação. O respeito através do medo. A auto-afirmação pela força. O dinheiro pela chantagem. E por aí vai.

O crime está no piscar de olhos da Lei. No lado oposto da câmera de vigilância. No ângulo cego de todos os equipamentos de segurança. O crime vive na sombra do controle. Resulta de uma combinação inusitada de detalhes. Exerce-se numa chance especial. Acontece no vacilo de uma só variável dentro de uma infinidade de variáveis da realidade. O crime sempre se encontra num hiato. Numa fenda que se abre num momento ímpar. O crime é o “pulo quântico” do Sistema Social. É como um código pré-determinado que vive à espera do momento ideal. É o “buraco negro” do Estado.

O crime deriva da arte de criar brechas. Gerar oportunidades através de pensamentos minuciosos. Está nos pormenores maldosos, num macete qualquer. Está na mão do nosso amigo, na cartela do garçom, na caneta do político, na fiação dos taxímetros, nos gatos, nas entrelinhas dos fatos. O crime é desesperançado, por isso, não planeja a longo prazo. Visto de longe, o crime é frio. De perto, ele ferve, se entrega à emoção e é movido por um instinto profundamente superficial. Comumente, o crime não acredita no poder dos métodos. O crime é preguiçoso, logo, extremamente pragmático.

O crime começa quando nascemos. E floresce aos poucos. Nasce no rosto de tranquilidade que as crianças fazem ao sair do mercado com balas roubadas no bolso. Surge na mão do moleque que, ao dividir um pedaço de bolo com seu irmão, corta seu próprio pedaço um pouquinho maior. O crime está nesse pouquinho. Precisamente nesse pouquinho. Nesse avanço à fatia alheia. Nesse deslize, nessa irrupção ao limite vizinho. O crime é essa argúcia que age em função de um ego mudo; a articulação meticulosa que alimenta uma vaidade vã. Que todos possuem. Que possui todos, em níveis de diferentes.

O crime costuma beijar sua esposa diariamente. Também ama. Às vezes reza e costuma olhar todo dia para uma foto do seu filho. O crime sente afeto e muitas vezes é (até) carinhoso. O crime é impaciente e, necessariamente, imediatista. O crime não quer ser crime. Originalmente, quer se dar bem a qualquer custo. Mesmo que para isso seja preciso cometer um crime. O crime sabe que o é, mas em grande parte não compreende direito porque está sendo. O crime não tem e nem quer ter ideologia. Seu ideal é concreto. Seu fundamento é material. O crime não faz questão de ser crime. Não se envaidece por isso. O crime é ingênuo demais para ter grandes vaidades. Sua vaidade é infantil. Por isto, sua ambição limita-se ao submundo. O crime é inocente.

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