Por um Alemão descomplexado

Cidade de Deus (2002) foi um dos filmes mais assistidos do Brasil. E as guerras, os diálogos e a plástica do filme fizeram Busca Pé (protagonista-narrador) virar coadjuvante. Dadinho (Zé Pequeno), Bené, Cabeleira, esses sim ficaram na memória dos espectadores. Cidade de Deus iniciou uma época de “glamour” sobre a malandragem das favelas. Fundou uma nova estética bandida no cinema brasileiro.

Tropa de Elite (2007) trouxe a retórica do Estado. O ponto de vista da polícia. Desmistificou a “bondade” do Governo e, desta forma, legitimou a postura do Bope. O filme inteiro vangloria o perfil dos “caveiras” e ratifica a excelência da tropa, colocando-a sobre um pedestal (quase acima do próprio Governo). Com isso, Tropa iniciou a época do glamour em torno desses soldados. Tropa de Elite 2 (2010) fortaleceu ainda esse glamour.

Tropa de Elite (1 e 2) pode ter generalizado a corrupção policial e política fluminense. Mas, exaltando a virtude do Bope, resgatou uma fagulha de orgulho do Estado. Talvez a última fagulha que restava. Acredito que as manifestações populares de apoio à Polícia, durante a invasão ao Complexo do Alemão, foram consideravelmente influenciadas pela imagem do Bope propagada pelo filme. O apoio da comunidade à ocupação, por mais que tenha sido espetacularizado pela mídia, foi verídico. O povo do Alemão também vem reconquistando seu orgulho. O filme teve um papel inconsciente e relevante nessa história toda.

É importante para a sociedade que a mídia repercuta o orgulho e a confiança dos cidadãos no Estado. Sem exageros, porém, e sem omitir os inconvenientes (como muito faz). Pois a verdade é que não existe cidade, estado, nação sem orgulho de sê-lo. Sem a admiração da força de ordem que possui. Não existe família sem orgulho de ser uma família. Casamento sem orgulho da união. O orgulho é o laço imaginário que abraça a todos dentro de uma unidade específica. Sem orgulho, as unidades se fragmentam. Esse orgulho é o fundamento de qualquer unidade em qualquer lugar do mundo.

0 comentários:

Postar um comentário