O silêncio do desencanto

O desencanto chega quando o encanto sai. O desencanto é a agulha que estoura as bolhas ideológicas. Remove a maquiagem e rasga a fantasia que criamos em torno do mundo desde criança. Com isso, também enfraquece os deslumbramentos que nos entorpecem. Extermina, sem piedade, nossos delírios improdutivos. Queiramos ou não, o desencanto nos torna mais pragmáticos. Conduz-nos ao mundo material. Lembra-nos que, pelo menos nesta vida, o mundo material é tão importante quanto o imaterial. O desencanto nos leva à forma, sem desmerecer o conteúdo. E nos ensina (sabiamente) que a forma é tão importante quanto o conteúdo. O desencanto é uma sabedoria. Uma sabedoria silenciosa.

Andei sumido desta coluna nos últimos meses. Aliás, sumido não. Andei em silêncio. Observando, absorvendo. Desencantando-me um pouquinho (para variar) com certas pessoas, posturas, atitudes. Também andei mais calado no meu dia-a-dia. De fato, é preciso fazer silêncio para aprender. Silêncio para aceitar (entender nunca) a correria cotidiana e submeter-se às novas perspectivas que a vida nos sugere. O desencantamento é um processo de aprendizado. Um processo de aprendizado silencioso.

O desencanto nos zera, nos atualiza, e por isso tende a nos nortear. Evita que desperdicemos nossas palavras íntimas com quem não merece recebê-las. Faz-nos engolir nossos discursos e opiniões e digeri-los em prática. Ajusta-nos conosco. O desencanto é revelador, logo, não deixa de ser encantado. O desencanto tem disso. Emudece-nos diante de nós próprios, pois nos obriga a submetermos ao mundo real. Evoca o poder do mundo físico. Tem a força de diluir nossas razões teóricas e duras em atos práticos e flexíveis que preenchem necessidades concretas. Mostra-nos que, no mundo real, quem não se flexibiliza quebra.

O desencanto é essa sabedoria. Sabedoria que só pode ser adquirida se a humildade estiver aberta. Humildade para reconhecer o poder da realidade material. Humildade para admitir que não há crescimento real sem desencanto. Sobretudo, o desencantamento acontece no silêncio. E é comum o excesso de pensamentos, planos e ideias não permitir que o escutemos. O desencanto é silencioso como a Verdade. Nasce iluminada, epifânica e narrada “em off”. E talvez o sentido da vida só nos seja nítido dentro deste silêncio. Dentro dessa mudez produtiva, paciente e vingativa. Nesta solitária consciência silenciosa. Dentro desse silêncio ardente e calculista.

1 comentários:

veronica disse...

muito bem.tiro o chapéu.

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