A bênção da ignorância

Perceber demais o que acontece ao nosso redor é doloroso. Mais que isso, o percebimento excessivo é infernal. Haveria sofrimento maior que sentir demais, enxergar demais, conhecer demais, receber informações demais de uma vez só? Daí, se a percepção é a salvação dos ignorantes, a ignorância, por sua vez, é o remédio dos que percebem demais. Mas como reconquistar a dessabença se ao notar que estou ignorando algo, automaticamente, estou percebendo de novo? Pois então. Ignorar é mais difícil que perceber.

A ignorância só é pura e válida quando surpreende nossa inconsciência. Quando nos é dada feito uma bênção. Nós próprios não temos o poder de nos presentear com a ignorância. Talvez apenas permiti-la... Enfim. Na maioria das vezes, é mais fácil um ignorante perceber o que foi ignorado que um observador ignorar o que foi observado.

A ignorância dança sem perceber. A percepção observa sem poder dançar. O ignorante pode não possuir a arguteza da observação. Mas um grande observador sempre carregará consigo uma dose de ignorância. Quanto mais percebemos o mundo, mais saudade sentimos da boa e velha ignorância. O percebimento é importante para que possamos observar as coisas, analisá-las. Mas só a ignorância cessa nossa ponderação e a exprime em ato. Percebemos para ponderar. Ignoramos para agir. Nossa atitude tem a espessura da nossa insipiência.

Não há virilidade sem ignorância. Nossa ignorância é o nosso lado animal. Lado que nos vincula ao mundo dos instintos. É o cordão umbilical que nos fundi aos estímulos mais primitivos e terrenos. É a nossa ignorância, e não a nossa percepção, que nos religa à vida. A ignorância é a nossa matriz. A base da nossa sanidade. Nosso sedativo, nosso “pé de apoio”, nosso núcleo. Aproximar-se de Deus, por exemplo, é aproximar-se da ignorância, da sucumbência racional. Deus criou a ignorância, o Diabo veio e inventou a razão (não é à toa que Lúcifer é associado à razão). A ignorância absoluta é a morte, o reencontro com Deus.

A ignorância também é despretensiosa (charmosa muitas vezes) e sempre é aconchegante. Ignorar é como voltar para casa. Voltar ao lar. Usamos drogas para ignorar. Queremos dormir o dia inteiro para ignorar. Bebemos, fumamos e tomamos remédios para ignorar, fugir das percepções desagradáveis. Choramos pelo nosso time, rezamos para nossos deuses, fazemos o diabo para nos afastar dos infortúnios dessa realidade indigesta. O homem faz isso desde que o mundo é mundo. Fazemos de tudo para retornar ao agradável Paraíso da Ignorância. As pessoas costumam crucificar a ignorância. Os intelectuais em geral então, sempre condenaram a insciência alheia. Ingratidão deles. Esquecem que ignorante também é aquele que ignora a importância da ignorância.

6 comentários:

Mônica Bittencourt disse...

É muito angustiante isso. Quanto mais a gente tem noção do que estamos vivendo e sentindo, menos a gente vive e sente.
A gente observa de forma distanciada -como vc diz- Des envolvidos. Quanto mais des envolvidos, menos envolvidos.

Petrus disse...

...não seria "que nos funde?"

Eduardo Soares disse...
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Eduardo Soares disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eduardo Soares disse...

Gênio

Levi Castro disse...

Digo que quem critica a ignorância realmente não sabe da sua importância e talvez perceba pouco e saiba pouco em amplidão sobre a realidade que nos cerca dia a dia, pois de modo que conhecer por erudição é diferente de saber por compreensão. Portanto quero dizer com isso que os intelectuais e as pessoas comuns geralmemte criticam a ignorância no sentido de conhecer, pois se por ventura se deparassem com a agonia da percepção e análise excessiva, gostaria tão somente em ser o mais vil dos ignorantes

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