Saudade do Presente

A finitude do meu corpo às vezes me causa estranheza. Todos os dias, eu acho. Todos os dias me pego num esforço físico que me desagrada. Que desqualifica um pouco tudo aquilo que eu sinto. E o que eu sinto é tão amplo. Só eu posso sentir. Só eu posso saber o tamanho da fé que deposito quando tenho fé. É de uma vontade bigbeniana. Assustadora.

Lembro da fé que depositei no exato momento em que atirava um dente de leite sobre o telhado da casa de veraneio de meu finado avô, anos atrás. É dessa fé que falo. Volta e meia – é raro – eu tenho lapsos dessa fé aguda. Dessa certeza absoluta, quase louca, de que tudo irá dar certo. De que tudo já deu certo só por tamanha contaminação de esperança imediata. Fé que recebo porque gero. Que gero porque permito. Que permito não sei porque.

Às vezes, essa fé, essa paixão pela vida, abre-me um frio pontual no estômago. É como se eu conseguisse me transportar diretamente ao êxito de fato, sem lá estar. Já teve essa sensação? Às vezes, a alegria dos loucos me assalta. É como se eu já estivesse vivendo com saudade do presente. Com se eu já estivesse lá, distante, no futuro. Num futuro no qual supervalorizaremos este agora. Como se eu tivesse uma informação muito privilegiada.

Essa sensação toda me faz querer viver tudo de uma vez. Mas como viver todos os pontos de vista estando em apenas um? Como viver todos os lugares ocupando apenas um? Como viver todos os amores tendo uma só vida? Como viver plenamente? Como expor-me de fato, se quanto mais me exponho, menos sabem a meu respeito, pois tudo que digo é sugestão de mim, não sou eu! Como me dizer de forma bruta e integral? Palavras nunca vão me exprimir.

Definitivamente, nossa condição de matéria não faz jus à profundidade de nossas paixões. Meu amor pela vida, pelos meus amores, e minha fé em mim, não cabem neste frágil e pequeno corpo. Eu já não me caibo e, qualquer dia desses, eu ainda explodo. Literalmente.

2 comentários:

Pablo Seciliano De Paula disse...

Eu tenho um pequeno passaro azul em mim, e ele quer cantar, mais eu nao permito, eu deixo ele preso pq sei que quando eu liberto ele as vezes e o mais estarrecido e perfeito som que aos ouvidos de qualquer um que chegue o som sera entendido com conviccao de que e um canto feliz

incerto. disse...

Sensacional! Amei.

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