O rei está vivo

Meu corpo é um reino. Eu sou o Rei. Carrego um reinado inteiro dentro de mim. Abrigo soldados, cavalos, torres, bispos, exércitos inteiros. Meu Estado tem órgãos e entidades que marcham sob uma pulsação orquestrada. Meu Estado tem centenas de vias, milhares de artérias, que não podem ser congestionadas. Preciso administrá-las e manter seus respectivos fluxos. Eu sou Rei do meu Estado.

Trabalho para manter a saúde do meu Estado. Manter a paz interna do meu Estado. Conservar, melhorar e ampliar as faculdades físicas e intelectuais do meu reinado. Meu objetivo é buscar o bem estar do meu reino. Para isso, tenho que saber administrar meu poder. Afinal, apenas eu, mais ninguém, sou Rei do meu Estado.

Diariamente, entro em contato com reis de outros reinos. Preciso cultivar uma boa relação com eles. Tenho fortes alianças firmadas. Uma boa relação internacional é extremamente importante. Há tempos meu Estado não entra em guerra. É prudente, entretanto, manter-me sempre preparado para o confronto, fortalecendo meus exércitos, adquirindo novas armas, qualificando minhas tropas. Nunca se sabe quais são as intenções do Estado alheio. Mantenho-me atento a tudo e todos. Meu Estado está sob minha responsabilidade.

Conflitos internos, porém, acontecem com frequência. Minha corte me auxilia e está em alerta para detectar qualquer espécie de crise, com a maior antecedência possível. Com uma boa gestão, as confusões são contornadas. Comumente, reinos aliados me dão apoio. Sou grato a todos esses. Aliás, a ingratidão e o orgulho barato já cansaram de derrubar castelos.

Para manter o controle interno, é fundamental ceder prazeres à base da pirâmide - corpo do Estado. Pão e festa na medida certa. É necessário também saber identificar as falhas da corte – topo da pirâmide. Assisti à ruína de muitos reinos por conta de “vistas-grossas” internas. Reis demasidamente complacentes ou demasidamente rigorosos para com sua corte jamais conquistaram respeito na comunidade internacional. Convém, portanto, estimular os atos da corte que vão de encontro ao princípio do meu governo. Minha vida é honrar meu Estado.

Dizem que os Deuses escolhem os Reis. E que eles passam nove meses em teste para serem “eleitos pelos Deuses”. Minha nação já foi bombardeada dezenas de vezes. Sofreu graves crises internas. Após anos de reinado, aprendi que, por mais que o inimigo dizime minhas tropas, assassine minha corte e até mesmo execute minha rainha, hei de honrar minha condição de Rei. Enquanto não exterminarem-me, um novo reino há de ser reerguido através de mim. No tabuleiro da vida, o jogo só acaba quando matam o Rei.

1 comentários:

Os Celenterados disse...

Pra que fique registrado!

Excelente analogia. Simples e profunda. O Rei deve ser tomado como referência para governadores, prefeitos, etc. Só é Rei quem sabe pensar, decidir e agir como um, e não ao contrário como costumamos ver em "nosso" reino. Como um sábio amigo disse uma vez, a elite nunca será dos que ostentam, dos que aparentam e dos que apreciam o ter pelo ter. Por natureza, um Rei precisa ser nobre!

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