O otimismo do pessimista

Tava num dia daqueles que não vemos solução pra nada. Quando a paz se perde, quando o peso invade, o norte se esvai. Quando emoções agudas de amores antigos apertam meu peito, turvam minha visão, curvam meu ombro e pesam minha cabeça. Mas como escreveu Clarice, “perder-se também é caminho”. E de pensar que poderia caminhar pelo descaminho, metade da crise foi digerida.

Nesses momentos, em que minha energia vibra abaixo da média, é comum eu questionar o funcionamento da sociedade. É incrível como, apesar das barbaridades que os jornais estampam, a civilidade “até” que funciona de forma média. Absorto em minha atmosfera pessimista, parece-me mágico ver um carro parar num sinal vermelho e uma senhora atravessar na faixa. Na tristeza gratuita e na confusão mental, qualquer espécie de organização me parece sublime.

Curioso. É nos momentos de pessimismo que vejo que as coisas “até” funcionam, que a sociedade “até” consegue sobreviver em sua harmonia medíocre. Percebo que muita coisa, quiçá tudo, pode vir a dar certo. E chego à máxima: é no pessimismo que sou otimista. E é por isso que, desde criança, já sentia que as manifestações muito óbvias de otimismo, provavelmente, denunciam uma profunda desesperança.

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