Amor extremo

Talvez os animais amem. Talvez. Mas os homens não. Nem as mulheres. Seres humanos não amam e nem vão amar. Amar é muita coisa. Amar é demais pra gente. Na história da humanidade nenhum homem conseguiu amar até hoje. Nós tentamos amar. Queremos amar. Amamos as consequências de nossas tentativas frustradas de amar. É prepotência humana querer amar. Quem somos nós pra amar?

O amor não pertence ao nosso mundo. Não toca no mundo. Aliás, ele encosta no mundo, mas encosta como sugestão de amor, nunca como amor em si. O que existe no mundo é a sugestão do amor, o projeto do amor, o planejamento do amor, o plano de amar, a esperança de amar, a expectativa de amar. O amor em si está numa margem outra. Nossa condição humana é o suficiente pra não podermos alcançá-lo.

O amor é absoluto. Por isso a razão cancela automaticamente qualquer possibilidade de acesso ao amor. E isso não é triste. Isso é lindo. Isso é romântico no sentido verdadeiro da palavra. É, de certo modo, gratificante ver que o amor permanece blindado, intacto, ininvocável. Seres humanos não têm tamanho, grandeza, plenitude, pra amar. Não sustentam o amor. Nós não sentimos amor. Chamamos de amor o sentimento de frustração pela tentativa de amar. É impossível amar de fato.

Moralistas e Libertários

Os moralistas apontam o caminho certo. Para os libertários, não há caminho. Moralistas demonizam os libertários e desejam exterminá-los. Libertários acham os moralistas entediantes, malas e indiferentes.

Moralistas são cínicos no sentido pejorativo. Libertários são cínicos no sentido filosófico. Moralistas trabalham de braços cruzados. Libertários vagabundeam de braços abertos. Libertários contém. Moralistas estão contidos. Moralistas entendem os libertários. Libertários compreendem e abrangem os moralistas.

Moralistas são profundamente perdidos e superficialmente objetivos. Libertários são profundamente objetivos e superficialmente perdidos. O moralista é religioso para fugir da própria escuridão. O libertário foge da religião para conservar sua própria luz. O moralista quer ser do bem. O libertário quer ser encantador. Moralistas compram o que é bonito. Libertários buscam o que é belo. Moralistas convencem. Libertários seduzem.

Moralistas colocam os valores da sociedade sobre os seus valores existenciais. Libertários colocam seus valores existenciais acima de tudo. Moralistas superestimam a Lei. Libertários estimam a Lei. Pro moralista, o Estado é Deus. Pro libertário, o Estado é um moralista gigante.

Pros moralistas, a contradição é indigesta. Pros libertários, a contradição é edificante. Moralistas acreditam nas palavras. Pros libertários, o silêncio tem sempre razão. Moralistas se envolvem. Libertários se desenvolvem.

Moralista é o cara que tenta conquistar a mulher oferecendo drinks, jóias, jantares. O libertário é o cara que assalta o coração da mulher com um olhar, com uma palavra. Moralistas falam. Libertários cantam. Moralistas olham pro seu olho. Libertários olham pra sua alma. O olhar dos moralistas é inofencivo. O olhar dos libertários é venenoso, debochado, futurista, perverso, livre e atravessa as pessoas deixando-as nuas. Moralistas olham. Libertários veem.

Moralistas vivem pra razão. Libertários vivem pra emoção. Moralistas pensam e têm. Libertários sentem e são. Pro moralista, a emoção é errônea e a razão é certeira. Pro libertário, a emoção encoraja e a razão acorvarda. Moralistas dão presentes. Libertários dão carinho. O moralista quer deixar bens. O libertário quer deixar saudade.

É comum os moralistas chamarem os libertários de suicidas. Moralistas defendem a vida do ponto de vista da própria vida (que é curta). Libertários também defendem a vida, mas do ponto de vista da morte (que é eterna). Moralistas riem somente em vida. Libertários gargalham pela eternidade. Moralistas têm razão até a morte. Os libertários começam a ter razão quando morrem. A morte é a vingança dos libertários; é a resposta do romantismo libertário aos moralistas. Quem são os verdadeiros suicidas?

Os românticos sempre riem por último.

Frases mentirosas

Eu quero e não quero a verdade. Conhecer a verdade pode ser uma maldição. Talvez quem conheça a verdade morra. Verdade pode ser sinônimo de morte. Talvez quem conheça a verdade surte de imediato. Sofra um ataque cardíaco ou vegete pra sempre. Enfim. Vão dizer que a verdade não existe. Que isso é papo de maluco. Mas a verdade, no mínimo, se esconde atrás da afirmação de que a verdade não existe. O fato de a verdade ser indizível, invisível e intocável não quer dizer que ela não exista. A verdade pode ser impensável, incogitável, inconcebível, imensurável, mas isso ainda não anula sua existência.

Admito que em cada texto que escrevo carrego a ambição de dizer tudo. Em minha ambição, sustento a ilusão de dizer a verdade. Esforço-me para dizê-la mas ela sempre me escapa. Sem dúvida, cada frase que escrevo é uma tentativa frustrada de dizer a verdade. Minhas palavras são tiros que nunca acertam o alvo. Cada frase confirma minha infelicidade e constata que a verdade é escorregadia. Minhas frases sempre resvalam. Minhas frases sempre erram o alvo.

Enxergar a verdade seria como conseguir ver - ao mesmo tempo - todos os gomos de uma bola de futebol. Expressar a verdade seria como chutar uma bola de futebol por todos os lados, ao mesmo tempo. Mesmo se fosse possível, a bola permaneceria parada, inerte. Talvez seja por isso que o silêncio está muito mais próximo da verdade do que a tentativa de dizê-la.

Sempre que tento me aproximar da verdade ela se desfaz em contradição, surge esférica à minha frente e não permite que eu a diga. A verdade sempre se esquiva do meu racicínio, foge de mim com elegância, desliza pelas minhas frases, dribla minha palavras, some num buraco negro do mundo das ideias, se esconde numa fenda quântica linguística qualquer.

Ocorre que as palavras não conseguem dizer a verdade. Não podem dizer a verdade. Palavras nunca dizem a verdade. Todas essas frases são mentirosas. Palavras somente dançam loucamente em torno da verdade. Tentam seduzir a verdade. Mas, ao mesmo tempo, as palavras se satisfazem apenas com a tentativa. Na realidade, as palavras não querem dizer a verdade. Palavras existem para mentir. Palavras existem para nos afastar da verdade assustadora. Para a verdade, não importa o que pensamos, falamos, percebemos, escrevemos. Enquanto nosso pensamento nos distrai, vivemos à mercê dessa verdade intangível.

Eu não posso ver a verdade, muito menos expressá-la. Mas consigo ver a nossa impotência perante a verdade. E é justamente essa impotência que denuncia a existência dessa verdade. Verdade una, que vai do núcleo dos átomos às margens do universo. Uma verdade que dita as regras, ignora nossos métodos, atropela nossas mesquinharias e debocha das nossas tentativas ridículas de encontrá-la. Eu ouço a verdade rindo quando tento dizê-la. A palavra é palhaça da verdade. A palavra é a raspa, é o resto, é o bagaço da verdade.

Mas de uma coisa eu suspeito. Suspeito que a verdade seja vaidosa. Acho que a verdade criou as palavras só para brincarmos de alcançá-la. Mais a verdade foi maldosa, ela não criou somente a linguagem, ela criou a limitação da linguagem como artemanha. E fez isso para justificar sua existência. Fez isso por auto-afirmação. Tudo isso é claustrofóbico. É agoniante ter a linguagem como única alternativa de liberdade consciente. E é, de certa forma, deprimente observar que esta mesma linguagem não entra em contato com a verdade. A verdade ainda se mantém blindada, intacta e distante. A razão perverte qualquer psique, corrompe qualquer espírito, mas não consegue e não pode alcançar a verdade. A verdade independe do que eu digo. Independe da minha intenção. Independe do meu raciocínio. A razão é esquizofrênica perante a verdade.

Ensaio sobre o artista

O artista pertence à classe dos desclassificados. Tenta ter moral mesmo sendo assumidamente imoral. Ser artista é uma alternativa de vida. Você pode ser alguém ou pode ser artista. Ser artista é carregar a glória delirante de ser tudo e sustentar o peso prático de ser nada. O artista não é melhor nem pior que ninguém. É artista.

A permissividade rege o artista. O artista é a represenção física da palavra "Sim". É natural do artista testar limites. Colocar extremos à prova. Influenciar, ser influenciado; corromper, ser corrompido; perverter e ser pervertido. É do artista desbanalizar o banal. Pra ele, viver é mais desgastante, tenso, pesado. O artista precisa de energia dobrada pois gasta energia em dobro. Além de manter-se atento com tudo, o artista está sempre atento com o "nada".

O artista faz arte porque não tem tempo a perder com outra coisa. Ao contrário do que muitos pensam, o artista comumente é prático. Aliás, há uma série de prejulgamentos em torno do artista. Muitos acham que os artistas são pessoas mais ingênuas. Mas o artista é tudo, menos ingênuo. O artista é a malícia em carne e osso.

O artista é um espírito vivo. Ele é médium da sua própria entidade. Ele é capaz de resolver um problema pensando no que outra pessoa (que pode resolver o problema) faria se estivesse no lugar dele. O artista não apenas analisa e conhece pessoas. Quando convém, ele manifesta as outras pessoas nele próprio. O artista é mais louco que os loucos de hospício porque não admite ser chamado de louco e ainda tenta convencer o mundo inteiro de que sua loucura tem mais razão do que as outras razões. O artista quer desabrochar; quer se vingar. Se vingar de quem o chamou de louco. O artista quer vingança.

Artistas são cobaias da existência, cobaias da vida, cobaias de si. O artista não vive a regra. Ele flerta com a regra. Joga com a regra o tempo inteiro. Mantém um amor platônico com a regra. Mantém-se à margem da regra e se alimenta desta distância. O artista flui pela trangressão. Seu tempo é outro. No fundo, porém, o artista deseja a regra. Sabe que a regra é o seu bem mais precioso. O artista vive em crise porque vive da crise, se alimenta de crise. Pro artista, o conforto é extremamente desconfortável. O artista não tem paz. E não sabe viver em paz. O artista é o anjo caído. É o pastor do questionamento. É o advogado do contra em qualquer circunstância.

O artista sempre cria algo da margem. Nunca cria algo do centro. Entretanto, ele faz questão de convencer o centro com sua margem. Artista não se comunica, artista transa. Artista não observa, ele estupra. Quando um artista compreende algo, ele exorcisa algo. O artista tem uma postura promíscua perante à vida. Ser artista é ser promíscuo no sentido mais libertário da palavra. O artista é o instrumento que a Vida usa pra se expressar. É o pretexto que os deuses encontram para manifestar suas facetas. É o argumento que a existência tem para justificar suas contradições. O artista não é iluminado. Ele ilumina. O artista é um aglomerado de vida, um nódulo de vivacidade dessa teia objetiva. O artista é um acidente sistêmico. O artista é imortal porque a Vida não morre. Ele nasce na medida em que a Vida transborda.

Sonho Semântico

Sonhei que as palavras eram corpos. E que os significados eram almas. Sonhei que tinha viajado para o mundo dos significados. Lá não existiam palavras, apenas significados. Sonhei que lá era o "Nosso Lar" das palavras. A todo momento, os significados tentavam entrar em contato com as palavras para "encorporar" em alguma palavra e, aos poucos, conquistar os cérebros humanos.

No sonho, os significados desejavam se libertar pelas palavras. Buscavam mergulhar e se deleitar dentro das mentes que pensavam com palavras. No sonho, os significados só queriam influenciar, se fazer presentes na cabeça dos seres humanos. Eles queriam se multiplicar e conquistar todas as mentes do mundo. Queriam existir para todos. Quanto mais cérebros o significado visitava, maior era a satisfação e o prazer existencial dele.

Sonhei que os significados eram pedaços de força sem características dizíveis. Mas vou tentar sugeri-los com algumas palavras e defini-los em duas categorias: grandes e pequenos. Os significados menores eram mais definidos, valiosos, raros, pesados, fortes, impactantes. Viajavam por poucas mentes humanas. Concentravam uma grande quantidade de energia. Alvejavam a mente dos poetas, dos escritores, dos filósofos, pois estes lhes atendiam com mais atenção, precisão e complacência. Já os significados maiores eram mais "rodados", haviam viajado bastante pelas cabeças terrestres. Eram frequentemente solicitados pelos homens. Eram populares, de fácil acessibilidade, elásticos, contagiantes, leves e genéricos. Tinha menos energia acumulada. E se sujeitavam a qualquer "chamado" terrestre para manter suas influências sobre as massas.

Sonhei que um significado esbarrou em mim e me sugeriu uma viagem ao planalto da Poesia. Não era fácil chegar lá. Era preciso viajar anos-luz pela estrada da linguagem e escalar a montanha do pensamento. Foi o lugar mais incrível que visitei. No sonho, o planalto da Poesia era uma verdadeira orgia. Somente lá os significados se encostavam sem pudor e transavam desenfreadamente entre si. O êxito de seus contatos rendiam-lhes orgasmos mágicos. Lá mesmo, os significados davam à luz novos "significadozinhos" mínimos, valiosíssimos e nunca antes solicitados pelo mundo real.

Sonhei que estes significados raríssimos e minúsculos não podiam visitar as mentes humanas através de uma ou várias palavras. Observei que alguns destes significados só podiam "descer" para o mundo através de uma complexa combinação de palavras. Sonhei com significados tão raros que nenhum filósofo, escritor, poeta ou robô seria capaz de apresentá-los aos mortais. No planalto da Poesia, avistei o nascimento de um significadozinho. Sonhei que me aproximei e participei do trabalho de parto. Sonhei que peguei o significadozinho com a mão. Sonhei que a certeza de estar com o significado mais valioso do momento ultrapassava o sonho. Eu segurei aquele grão incandescente, aquela ogiva significativa que perfurava a palma da minha mão com o peso da singularidade de sua luz.

Coisas do racismo

Você não é preso se chamar alguém de preto. Você é preso se fizer disso um insulto. Eu posso chamar meu amigo de preto quando eu bem entender. Isso é um problema entre eu e meu amigo. Nenhum terceiro tem o direito de engendrar um racismo na minha relação de amizade. O racismo tem isso: ele existe somente para quem o vê.

Na época da faculdade, uma professora quis interromper uma discussão construtiva que havia começado na sala. Ela alegou que o assunto (racismo) era “delicado” e era “como pisar em ovos”. Mas como assim é “delicado”, é “pisar em ovos”? Dizer isso é considerar uma possível fragilidade de alguma das partes envolvidas na discussão. E isto sim é racismo. Falei isso diretamente pra professora e a primeira coisa que ela disse foi: “Olha, você não pode me acusar de racismo, o meu marido é negro”. Respondi algo do tipo: “Dane-se que o seu marido é negro. Se eu levar isso em consideração, estarei sendo racista igual a senhora”.

Racista a gente identifica pelo seu pudor excessivo; pela sua necessidade de se explicar; pelo seu silêncio. Eles estão aí, casados com pessoas de raças diferentes, se defendendo com argumentos aparentemente coerentes, fortalecendo o grito de um racismo mudo e crônico.

O racismo é assim: se você cogitar mentalmente a possibilidade de estar sendo racista, você já foi racista. O racismo é uma arma que dispara em nossa cara se ousarmos simplesmente olhar pra ela. É uma maldição instantânea. Ao contrário dos males comuns, você não precisa acreditar no racismo para ser racista. Basta uma incerteza qualquer escondida no fundo de sua cabeça, uma duvidazinha ridícula e inconsciente, para o racismo roubar sua alma na velocidade da luz. (E isso serve pra homofobia, xenofobia, etc.) Na realidade, considerar a existência do racismo já nos torna racistas.

O racismo é uma palavra estranha porque (ao contrário da maioria) ela não tem um “lado positivo”. Mas porque não? Teoricamente, racismo é uma palavra que sugere a diferenciação das raças. Portanto, racismo pode sugerir uma diferenciação hierárquica de raças (o que é crime), mas também pode sugerir uma diferenciação não-hierárquica de raças (o que além de legal, seria interessante). Gostaria que algum mestre em Letras me explicasse, etimologicamente, por que a palavra “racismo” não pode sugerir uma diferenciação respeitosa das características raciais? Recuso-me a acreditar que todo racismo é crime. Onde está escrito que o sufixo “ismo” do racismo implica em algo necessariamente negativo para as raças?

Se nenhum professor de Letras conseguir me provar o contrário, acho que deveríamos rever o significado dessa palavrinha medonha. Talvez estejamos sendo preconceituosos com o racismo. Acredito que a conotação negativa da palavra apodreceu a palavra inteira depois da Segunda Guerra. E nós deixamos por isso mesmo. Se racismo é uma palavra tão venenosa, talvez a única saída seja iniciar uma campanha para positivá-la. Com um slogan do tipo: "Sou racista de verdade. Eu respeito todas as raças". Acho que essa é única forma de atacar o racismo sem ser envenenado por ele. Se a palavra foi amaldiçoada pelo nazismo, abençoemos-a.

Capitalismo Neverland

Em 99% dos casos, as discussões em torno do sistema capitalista são chatas. Principalmente quando os envolvidos no debate são mais jovens e estão bêbados. Eu sou jovem, às vezes fico bêbado, mas vou me esforçar pra não ser chato.

O capitalismo é tão cruel e selvagem quanto qualquer outro sistema orgânico. O capitalismo faz o cara que tem um carrão se achar superior ao cara que está dentro de um ônibus. Faz o cara do ônibus se achar inferior ao cara do carrão. E claro, convence a sociedade inteira disso. O capitalismo sugere uma pergunta curiosa: como um animal mortal, do mesmo tamanho que você, pode exercer uma influência muito mais abrangente que a sua numa mesma sociedade? O que faz dois corpos do mesmo tamanho físico vibrarem de modo tão desigual num mesmo habitat?

O capitalismo tem um certo ritmo, uma dinâmica própria. Ele aniquila automaticamente quem o ignora. Ele só pode premiar quem joga no time dele, mas nem todos que jogam com ele são premiados. Podemos dizer que a natureza é o sistema animal. E que o capitalismo é o sistema humano. Ambos os sistemas são predatórios, arriscados e sem garantias. Ambos são anárquicos e despudorados em sua essência. Em ambos, só os caciques experientes colocam o ouvido no chão e preveem o próximo tsunami ou a próxima bolha financeira.

O capitalismo obriga as marcas a criarem auras mágicas em torno dos produtos. Quanto mais rica for a marca que você usa, maior é a sua proteção mística. O capitalismo cria um mundo tão encantado quanto o mundo de Alice. Os olhos das crianças vendo um pirulito brilham na mesma intensidade que os olhos dos homens vendo uma barra de ouro. O capitalismo resgata a emoção que o adulto perdeu na infância. Ressuscita a criança que mora dentro dele e faz isso muito bem com quadriciclos motorizados, mamadeiras alcoólicas, pozinhos mágicos e toda aquela nuvem mágica que existe ao redor dos logotipos de grife. A ostentação de poder é o bullying dos adultos.

O capitalismo é a forma que o homem encontrou para perpetuar sua infantilidade. O modo que o adulto achou de regar a secura de sua alma. A única saída para frear o excesso de razão que o apodrece a cada segundo. O capitalismo é o sistema que melhor se adapta a essa creche global que se auto-ajusta entre birras egocêntricas e chantagens atômicas. Somos filhos de uma terra sem pai, à deriva no mar negro do Espaço. Imploramos por uma ilusão que nos convença de que o mundo não é só um pedaço de poeira no meio do nada. Pagamos quanto for pra escapar desse deserto existencial sem fim. A sociedade do consumo desvairado é uma consequência inevitável do desespero humano. Fazemos qualquer negócio por um pouquinho de emoção.

A agonia dos livros

Se existe um lugar que melhor represente a atmosfera da palavra, esse lugar é a livraria. A livraria é um ambiente confortável porque, normalmente, a grande quantidade de livros cria uma acústica local – o que reprime a reverberação das vozes. É um lugar silencioso também porque se presume que ali existam pessoas lendo, concentradas, absortas. Mas a livraria não costuma ser silenciosa só por isso. As pessoas se calam dentro da livraria porque ali há uma grande concentração de conhecimento, sabedoria e experiência de todas as partes do mundo. Milhares de pensadores estão lá dentro. Prontos pra dizerem algo a quem quiser ouvi-los. E isso é o bastante pra intimidar quem entra ali.

Os livros oferecem o que você quiser. Basta curiosidade pra querê-los. Com alguns reais, você pode entrar nas tramas de Dostoiévski, tomar um chá com Clarice, discutir com Sócrates, receber conselhos de executivos milionários, conhecer todos os povos, todos os países, os 1001 filmes não sei o quê, os 1001 não sei o que lá. Parece banal, mas ter acesso à leitura é extraordinário. A livraria é a casa das informações mais relevantes do mundo. É um tesouro de histórias e discursos teóricos que influenciam as pessoas a transformarem nosso mundo prático. É onde temos acesso a um lugar superior. (Aquele “lugar” que fica “atrás” das palavras, sabe?) A atmosfera das livrarias nos faz compreender esse universo claramente.

Uma vez publicados, os livros ganham vida própria. Estão vinculados ao autor, mas não pertencem mais a ele. São de quem ler. Na livraria, numa certa sintonia, é possível ouvir nitidamente os livros conversando entre si. Discordando, bebendo vinhos, fumando charutos, viajando pelo mundo, debatendo sobre política. Basta caminharmos em meio às prateleiras para percebermos que os livros fazem de tudo pra chamar nossa atenção. Uns berram pra serem lidos. Alguns esperneiam, ficam de joelhos. Os mais sérios nos chamam pelo nome. Outros assoviam, derrubam o livro do lado. Todos eles desejam nos contar segredos íntimos ao pé de nossos ouvidos. Querem praticar o motivo de sua existência. Imploram, de várias formas, para alguém libertar suas verdades. As prateleiras são arquibancadas de livros ansiosos. A verdade (e o que vou dizer agora é um grande segredo) é que só existe um motivo que faça um livro não querer chamar a sua atenção: É quando o próprio livro julga que você não é interessante o suficiente pra ganhar o prazer de lê-lo.

Palavras ao crime

O crime sempre está associado à novidade. Burlar a Lei requer malícia, informação atualizada. Desse ponto de vista, o crime é uma arte. O crime quer atenção e consegue. Consegue porque está sempre na mídia. Porque, no fundo, são as notícias sobre crimes que nos tiram do tédio cotidiano. O crime, portanto, é espontâneo e sempre mais autêntico que a previsibilidade da obediência à Lei. O crime é feito uma criança armada numa sala cheia de adultos. É a ignorância em ação. O respeito através do medo. A auto-afirmação pela força. O dinheiro pela chantagem. E por aí vai.

O crime está no piscar de olhos da Lei. No lado oposto da câmera de vigilância. No ângulo cego de todos os equipamentos de segurança. O crime vive na sombra do controle. Resulta de uma combinação inusitada de detalhes. Exerce-se numa chance especial. Acontece no vacilo de uma só variável dentro de uma infinidade de variáveis da realidade. O crime sempre se encontra num hiato. Numa fenda que se abre num momento ímpar. O crime é o “pulo quântico” do Sistema Social. É como um código pré-determinado que vive à espera do momento ideal. É o “buraco negro” do Estado.

O crime deriva da arte de criar brechas. Gerar oportunidades através de pensamentos minuciosos. Está nos pormenores maldosos, num macete qualquer. Está na mão do nosso amigo, na cartela do garçom, na caneta do político, na fiação dos taxímetros, nos gatos, nas entrelinhas dos fatos. O crime é desesperançado, por isso, não planeja a longo prazo. Visto de longe, o crime é frio. De perto, ele ferve, se entrega à emoção e é movido por um instinto profundamente superficial. Comumente, o crime não acredita no poder dos métodos. O crime é preguiçoso, logo, extremamente pragmático.

O crime começa quando nascemos. E floresce aos poucos. Nasce no rosto de tranquilidade que as crianças fazem ao sair do mercado com balas roubadas no bolso. Surge na mão do moleque que, ao dividir um pedaço de bolo com seu irmão, corta seu próprio pedaço um pouquinho maior. O crime está nesse pouquinho. Precisamente nesse pouquinho. Nesse avanço à fatia alheia. Nesse deslize, nessa irrupção ao limite vizinho. O crime é essa argúcia que age em função de um ego mudo; a articulação meticulosa que alimenta uma vaidade vã. Que todos possuem. Que possui todos, em níveis de diferentes.

O crime costuma beijar sua esposa diariamente. Também ama. Às vezes reza e costuma olhar todo dia para uma foto do seu filho. O crime sente afeto e muitas vezes é (até) carinhoso. O crime é impaciente e, necessariamente, imediatista. O crime não quer ser crime. Originalmente, quer se dar bem a qualquer custo. Mesmo que para isso seja preciso cometer um crime. O crime sabe que o é, mas em grande parte não compreende direito porque está sendo. O crime não tem e nem quer ter ideologia. Seu ideal é concreto. Seu fundamento é material. O crime não faz questão de ser crime. Não se envaidece por isso. O crime é ingênuo demais para ter grandes vaidades. Sua vaidade é infantil. Por isto, sua ambição limita-se ao submundo. O crime é inocente.

Mau aluno por uma questão de classe

Eu sempre fui um mal aluno no colégio. Aliás, na escola não existe mal aluno, existe mau aluno. Maus alunos aprendem a ser cruficicados desde pequeno. Há 20 anos atrás, lembro-me de um 2,0 que tirei numa avaliação do "C.A." no Colégio Franco Brasileiro. Foi, disparada, a menor nota da turma. Talvez eu tenha nascido ali, no momento em que fiz questão de olhar àquela nota ridícula e encará-la profundamente. Fixei meus olhos na nota e me perguntei o quê aquela prova provava de fato? Eu ainda faria mais algumas centenas de vezes a mesma pergunta para algumas centenas de provas "mal sucedidas".

O colégio é uma empresa. E uma empresa existe para "solucionar um problema". Basicamente, a necessidade de existir colégios surgiu na medida em que os pais passaram a não ter tempo de ensiná-los. Daí, o colégio contrata um professor para ensinar em larga escala. Mas como assim "ensinar em larga escala"? Quando se coloca 1 professor para dar aula a 30 crianças, parte-se da premissa de que todos os alunos estão na mesma condição de aprendizado. O que é, indiscutivelmente, um equívoco. O colégio reduz 30 crianças a 1. Claro que dará algo errado. Ou seja, o erro da escola se esconde em sua própria virtude. É risível e trágico: o terreno em que a escola se constrói é absurdamente leviano. Não estou aqui querendo sugerir soluções ao sistema educacional. Eu sei que isso não vai mudar. Escrevo isso como um desabafo, uma homenagem aos maus alunos e, de quebra, para justificar minhas centenas de notas baixas.

Matematicamente, numa turma escolar, 1 aluno sempre se dará bem e receberá os mais variados elogios. E 1 outro sempre se dará mal e terá que sustentar sua auto-estima sozinho, borbardeado - mesmo que sutilmente - com os rótulos "fraco", "desatento", "avoado", "desinteressado". E esse é o pior bullying que uma criança pode sofrer. O bullying da própria escola. O bullying invisível. Essa violência moral silenciosa travestida de verdade absoluta, que asfixa e tortura a inteligência da criança. Anna Freud, a última filha de Freud, certa vez escreveu: "Mentes criativas são conhecidas por sobreviverem a qualquer tipo de mau aprendizado". Eu não tenho a menor pretensão de mudar o sistema educacional ou sugerir alguma solução. Eu sei que não há solução. Essa é uma causa perdida. Não há modelo ideal de ensino. Eu aceito isso. Pretendo aqui expor um novo ângulo. Uma nova fotografia da nossa realidade. Registrar as entranhas dessa Educação pela perspectiva de (mais) um mau aluno e potencializar o orgulho das crianças rebeldes.

Gostaria de deixar bem claro que as escolas lidam com crianças e crianças não sabem o que estão fazendo na escola (nem o aluno que tirou 10 na prova sabe). É natural que, entre 30 crianças, 1 delas não se interesse pela aula. O desinteresse é autêntico. Certamente (e ainda bem), pelo menos 1 criança não será atraída por aquilo que está sendo dito em aula. Ao invés de prestar atenção em algo "inútil" para ela, a criança "desatenta" prefere prestar atenção no seu próprio mundo. Isto faz sentido. Quem a escola chama de "fraco" possivelmente é quem possui mais fibra intelecual para rejeitar a opressão travesti do ambiente de aula. Isto se chama personalidade. Não quero sugerir o "fim" da escola (a perfeição não existe), estou apenas propondo uma nova forma de enxergarmos esses "maus alunos", em defesa da minha própria classe. Proponho aqui um construtivo giro de 180º em nosso olhar paralítico.

Tratando-se de crianças, o termo "desatenção" não se aplica. Não há criança "desatenta", há criança com a atenção voltada àquilo que lhe apetece. É muito fácil dizer que uma criança é "desatenta", quando na verdade ela está atenta justamente àquilo que o professor invariavelmente não enxerga. É confortável chamar o mau aluno de "avoado", difícil é conseguir ser interessante o suficiente para conquistá-lo. Uma nota baixa numa prova, portanto, muitas vezes prova que este "mau aluno" não está condicionado a engolir qualquer sentido goela abaixo. Prova também o poder de sua busca por sentidos mais consistentes. Ao passo que o "bom aluno" na maioria das vezes prova, com sua nota 10, que está 100% submetido àquilo que lhe é imposto. Sinceramente, qual desses tipos de aluno pode oferecer saídas criativas para um mundo melhor? Francamente, aonde está a personalidade e a inteligência de uma criança que simplesmente acata tudo que a escola lhe propõe? Em qual lata de lixo largamos a razão quando ficamos felizes com o fato de o nosso filho tirar 10 numa matéria em que ele ainda - definitivamente - não tem capacidade de compreender a importância? Eu gostaria de tirar os holofotes das crianças "responsáveis" e adestradas e apontar as luzes para as crianças desobedientes e saudáveis.

O Jardim do Vizinho

Eu quero ser o “jardim do vizinho”. Não quero tê-lo, não quero possuí-lo. Quero mais que isso. Eu quero sê-lo de verdade. Ser esse jardim mais belo. O mais verde e bem cuidado de todos. Deixarei de ser aquilo que já sabem que sou. Serei apenas o que os outros desconhecem de mim. Serei o grande “jardim do vizinho”, esse lugar que ninguém sabe onde fica, mas todos bajulam. Timidamente, porém, para não ferirem o próprio orgulho. Vou ser admirado por toda vizinhança. Vou ouvir os adultos romantizando-me no silêncio de suas inseguranças.

Quero ser o jardim de ninguém para poder ser, com exclusividade, o “jardim do vizinho” de todos. Ser objeto das fantasias mais ilusórias e adolescentes. Não quero ser mais um jardim de uma casa qualquer. Aliás, não vai mais haver casa em mim. Não tem graça ser o jardim da própria casa. Serei apenas o jardim do “jardim do vizinho”. Para isso, quero que minha casa fique em outro terreno. Para que ela possa me vislumbrar de longe. Faço questão de também ser o “jardim do vizinho” para a minha própria casa.

Quero ver minha casa e todas as outras se deleitando com as maravilhas que inventam a meu respeito. Vou ver todo o vilarejo me enaltecendo e me desejando. Vou ser, finalmente, esse jardim ao qual todos se submetem na profundeza de suas vaidades. Jardim que os vizinhos elogiam para si na covardia de seus desejos enrustidos. Vou ser o bom, velho e famoso “jardim do vizinho”. Despretensioso e causador. Sutil e barulhento. Jardim que coloca o invejoso de cara com sua própria inveja. Que deteriora a alma dos gananciosos. Perverte os pensamentos alheios. E mexe com a ambição da vizinhança inteira.

Vou ser o jardim mais colorido e cheiroso. Jardim literalmente intocável. Sem corpo físico, mas com muito prestígio. Quero ser a sublime satisfação de todo esse engrandecimento. Quero ser esse ego sem verbo, sem resposta, sem agradecimento. Somente o deleite do prestígio delirante alheio. Solto e deslocado num espaço metafísico qualquer. Deixarei de ser único para mim para ser comum a todos, dentro de todos. Serei só ouvidos aos elogios insanos direcionados a mim. Vou ser “jardim do vizinho” eternamente. Lugar que ninguém alcança. Mãos não encostam, olhos não veem. Aquilo que o vilarejo não consegue digerir por inteiro. O inapurável. Lá, onde não há nada. Onde só existem as possibilidades daquilo que inventam. Na solidão absoluta do inacessível “jardim do vizinho”.

Ensaio sobre Deus

Deus é o criador de tudo que há de mais lindo no mundo. Criou as maravilhas da Terra. Todas as belezas naturais. Desenhou as geografias mais fantásticas e as paisagens mais incríveis. As geleiras, as montanhas, os campos, o horizonte, os continentes – tudo foi criado por Deus. Ele não inventou apenas o dia, mas também a noite. Não engendrou somente o nascer do sol, mas também o pôr do sol. Ele não é só responsável pela existência dos animais, mas também pela existência dos homens. Isso sim é ser soberano. Deus criou o arco-íris, a aurora boreal, as ondas perfeitas do Havaí, os Alpes, a Cordilheira dos Andes, o Corcovado. Os maremotos, as tsunamis, os terremotos, as erupções vulcânicas, as tempestades e todos, absolutamente todos, os fenômenos da natureza. Vale lembrar que Deus é um conceito. E que aqui vou ensaiar alguns pensamentos sobre esse conceito, em seu ângulo mais popular.

Conceber Deus apenas em Sua forma bela é comum. É corriqueiro pensarmos num Deus exclusivamente do bem. Num Deus que pensa. Entretanto, ensaiemos juntos: se Deus pensa, Ele duvida. E se Ele duvida, Ele não é soberano. Se Deus pensa, inevitavelmente Ele acredita num deus maior que Ele para sustentar sua condição. E isso, automaticamente, já Lhe custaria Sua soberania. Portanto, não pensar é a prerrogativa para que Deus seja verdadeiramente soberano. Se Deus existe, Ele não pensa. Combinemos então, a partir daqui, que Deus não tem razão. Ele simplesmente é. Naturalmente é. Sem rótulos possíveis.

Nossa maior feiúra talvez seja insistir em vermos a vida de modo bipolar. Nossa pequenez talvez esteja em teimarmos em restringir Deus apenas a Sua dimensão justa, coerente e correta. Isso sim pode ser falso, injusto e descompensado. Se Deus é o equilíbrio de tudo, ele também é o “mau”. O mundo ocidental tem uma facilidade impressionante de entender o “mau” sempre de uma forma conspiratória, calculista e intencional. Mas esse “mau” vem de Deus e (como já combinamos) Ele não pensa no que faz. Se Deus é absoluto, só posso senti-Lo – sinceramente – em seu formato integral. Não consigo vê-Lo como um lado da moeda, mas como uma bola de gude inteira. Esférico, não chato.

Deus é simples. É essa natureza toda. Natureza bonita e devastadora. Natureza que não pondera. Cruel e bela. Ele é a pulsação desse imensurável organismo. Talvez Deus não queira salvar ninguém. Talvez isso não caiba a Ele. Talvez Deus queira somente Se salvar. E você, por algum motivo, está dentro Dele. O máximo que você pode fazer é se estruturar psicologicamente (seja lá como for) para o que pode vir a acontecer. E, claro, se antecipar aos possíveis problemas. Talvez nossos problemas não signifiquem tanto para Deus. Talvez uma Guerra Mundial seja uma simples coceira no dedão do pé Dele.

Deus tem que sobreviver. E se Ele tiver que escolher entre Ele Próprio e você, certamente, Ele optará por Ele Mesmo. Talvez a natureza de Deus seja sobreviver a qualquer custo. Mesmo que para isso, Ele tenha que sacrificar vidas, pessoas de bem. É da natureza de Deus sobreviver sem dar satisfação. Ele é assim. Não precisa dar explicações. Deus levou e continuará levando as pessoas que estão ao nosso redor. Talvez nossa estreiteza consista em pensarmos Deus pela metade. Talvez nosso delírio seja vê-Lo somente pela perspectiva que nos é conveniente.

A bênção da ignorância

Perceber demais o que acontece ao nosso redor é doloroso. Mais que isso, o percebimento excessivo é infernal. Haveria sofrimento maior que sentir demais, enxergar demais, conhecer demais, receber informações demais de uma vez só? Daí, se a percepção é a salvação dos ignorantes, a ignorância, por sua vez, é o remédio dos que percebem demais. Mas como reconquistar a dessabença se ao notar que estou ignorando algo, automaticamente, estou percebendo de novo? Pois então. Ignorar é mais difícil que perceber.

A ignorância só é pura e válida quando surpreende nossa inconsciência. Quando nos é dada feito uma bênção. Nós próprios não temos o poder de nos presentear com a ignorância. Talvez apenas permiti-la... Enfim. Na maioria das vezes, é mais fácil um ignorante perceber o que foi ignorado que um observador ignorar o que foi observado.

A ignorância dança sem perceber. A percepção observa sem poder dançar. O ignorante pode não possuir a arguteza da observação. Mas um grande observador sempre carregará consigo uma dose de ignorância. Quanto mais percebemos o mundo, mais saudade sentimos da boa e velha ignorância. O percebimento é importante para que possamos observar as coisas, analisá-las. Mas só a ignorância cessa nossa ponderação e a exprime em ato. Percebemos para ponderar. Ignoramos para agir. Nossa atitude tem a espessura da nossa insipiência.

Não há virilidade sem ignorância. Nossa ignorância é o nosso lado animal. Lado que nos vincula ao mundo dos instintos. É o cordão umbilical que nos fundi aos estímulos mais primitivos e terrenos. É a nossa ignorância, e não a nossa percepção, que nos religa à vida. A ignorância é a nossa matriz. A base da nossa sanidade. Nosso sedativo, nosso “pé de apoio”, nosso núcleo. Aproximar-se de Deus, por exemplo, é aproximar-se da ignorância, da sucumbência racional. Deus criou a ignorância, o Diabo veio e inventou a razão (não é à toa que Lúcifer é associado à razão). A ignorância absoluta é a morte, o reencontro com Deus.

A ignorância também é despretensiosa (charmosa muitas vezes) e sempre é aconchegante. Ignorar é como voltar para casa. Voltar ao lar. Usamos drogas para ignorar. Queremos dormir o dia inteiro para ignorar. Bebemos, fumamos e tomamos remédios para ignorar, fugir das percepções desagradáveis. Choramos pelo nosso time, rezamos para nossos deuses, fazemos o diabo para nos afastar dos infortúnios dessa realidade indigesta. O homem faz isso desde que o mundo é mundo. Fazemos de tudo para retornar ao agradável Paraíso da Ignorância. As pessoas costumam crucificar a ignorância. Os intelectuais em geral então, sempre condenaram a insciência alheia. Ingratidão deles. Esquecem que ignorante também é aquele que ignora a importância da ignorância.

Por um Alemão descomplexado

Cidade de Deus (2002) foi um dos filmes mais assistidos do Brasil. E as guerras, os diálogos e a plástica do filme fizeram Busca Pé (protagonista-narrador) virar coadjuvante. Dadinho (Zé Pequeno), Bené, Cabeleira, esses sim ficaram na memória dos espectadores. Cidade de Deus iniciou uma época de “glamour” sobre a malandragem das favelas. Fundou uma nova estética bandida no cinema brasileiro.

Tropa de Elite (2007) trouxe a retórica do Estado. O ponto de vista da polícia. Desmistificou a “bondade” do Governo e, desta forma, legitimou a postura do Bope. O filme inteiro vangloria o perfil dos “caveiras” e ratifica a excelência da tropa, colocando-a sobre um pedestal (quase acima do próprio Governo). Com isso, Tropa iniciou a época do glamour em torno desses soldados. Tropa de Elite 2 (2010) fortaleceu ainda esse glamour.

Tropa de Elite (1 e 2) pode ter generalizado a corrupção policial e política fluminense. Mas, exaltando a virtude do Bope, resgatou uma fagulha de orgulho do Estado. Talvez a última fagulha que restava. Acredito que as manifestações populares de apoio à Polícia, durante a invasão ao Complexo do Alemão, foram consideravelmente influenciadas pela imagem do Bope propagada pelo filme. O apoio da comunidade à ocupação, por mais que tenha sido espetacularizado pela mídia, foi verídico. O povo do Alemão também vem reconquistando seu orgulho. O filme teve um papel inconsciente e relevante nessa história toda.

É importante para a sociedade que a mídia repercuta o orgulho e a confiança dos cidadãos no Estado. Sem exageros, porém, e sem omitir os inconvenientes (como muito faz). Pois a verdade é que não existe cidade, estado, nação sem orgulho de sê-lo. Sem a admiração da força de ordem que possui. Não existe família sem orgulho de ser uma família. Casamento sem orgulho da união. O orgulho é o laço imaginário que abraça a todos dentro de uma unidade específica. Sem orgulho, as unidades se fragmentam. Esse orgulho é o fundamento de qualquer unidade em qualquer lugar do mundo.

O silêncio do desencanto

O desencanto chega quando o encanto sai. O desencanto é a agulha que estoura as bolhas ideológicas. Remove a maquiagem e rasga a fantasia que criamos em torno do mundo desde criança. Com isso, também enfraquece os deslumbramentos que nos entorpecem. Extermina, sem piedade, nossos delírios improdutivos. Queiramos ou não, o desencanto nos torna mais pragmáticos. Conduz-nos ao mundo material. Lembra-nos que, pelo menos nesta vida, o mundo material é tão importante quanto o imaterial. O desencanto nos leva à forma, sem desmerecer o conteúdo. E nos ensina (sabiamente) que a forma é tão importante quanto o conteúdo. O desencanto é uma sabedoria. Uma sabedoria silenciosa.

Andei sumido desta coluna nos últimos meses. Aliás, sumido não. Andei em silêncio. Observando, absorvendo. Desencantando-me um pouquinho (para variar) com certas pessoas, posturas, atitudes. Também andei mais calado no meu dia-a-dia. De fato, é preciso fazer silêncio para aprender. Silêncio para aceitar (entender nunca) a correria cotidiana e submeter-se às novas perspectivas que a vida nos sugere. O desencantamento é um processo de aprendizado. Um processo de aprendizado silencioso.

O desencanto nos zera, nos atualiza, e por isso tende a nos nortear. Evita que desperdicemos nossas palavras íntimas com quem não merece recebê-las. Faz-nos engolir nossos discursos e opiniões e digeri-los em prática. Ajusta-nos conosco. O desencanto é revelador, logo, não deixa de ser encantado. O desencanto tem disso. Emudece-nos diante de nós próprios, pois nos obriga a submetermos ao mundo real. Evoca o poder do mundo físico. Tem a força de diluir nossas razões teóricas e duras em atos práticos e flexíveis que preenchem necessidades concretas. Mostra-nos que, no mundo real, quem não se flexibiliza quebra.

O desencanto é essa sabedoria. Sabedoria que só pode ser adquirida se a humildade estiver aberta. Humildade para reconhecer o poder da realidade material. Humildade para admitir que não há crescimento real sem desencanto. Sobretudo, o desencantamento acontece no silêncio. E é comum o excesso de pensamentos, planos e ideias não permitir que o escutemos. O desencanto é silencioso como a Verdade. Nasce iluminada, epifânica e narrada “em off”. E talvez o sentido da vida só nos seja nítido dentro deste silêncio. Dentro dessa mudez produtiva, paciente e vingativa. Nesta solitária consciência silenciosa. Dentro desse silêncio ardente e calculista.

Ensaio sobre a razão

Os animais são completos. Não têm falta. São preenchidos. E, por serem preenchidos, eles não têm espaço para se distanciarem dos próprios pensamentos. Por isso, não conseguem enxergar os próprios pensamentos. Portanto, os animais sabem. Apenas não sabem que sabem. Quem sabe é inteligente. Mas só quem sabe que sabe tem razão.

Eu raciocino porque consigo movimentar meu pensamento. Movimentá-lo pra frente, pra trás, prum lado, pro outro, pra cima, pra baixo. Raciocino porque consigo me distanciar do que vejo sem sair do lugar. Movimento meu pensamento porque tenho espaço para isso. E só tenho esse espaço porque sou incompleto.

Minha razão se movimenta em virtude da minha incompletude. Minha razão é inerente ao que me falta. Mais que isso, minha razão equivale ao que me falta. Raciocino porque sou imperfeito. Meu raciocínio se desloca de um lugar para o outro. Ou seja, não ocupa dois lugares, logo, nunca vai me preencher. Ao contrário, meu raciocínio só tende a ampliar a minha falta.

A razão me encanta. Mas é da natureza da razão desencantar. A razão tenta decifrar nossos sentimentos, rotulando-os com palavras. A razão degusta nossos sentimentos com perversidade e assassina-os a sangue frio. A razão é fria. Mantém-se a 0 grau. A razão também é, muitas vezes, confundida com verdade. O que é um grande equívoco. Razoabilidade não é veracidade. A razão é apenas uma flexão da verdade.

Fato é que a razão é risível frente à força da natureza. Frente à força do acaso. Nenhum pensamento genial tornará um homem imortal na prática. O fato é que as civilizações são baseadas nas leis que são baseadas na razão. A natureza, porém, não precisa de razão para impor-se sobre todas as civilizações. Fato é que nunca poderemos dar uma resposta para nossa existência através da razão. Porque a existência não faz pergunta. A natureza não precisa falar para dizer quem manda.

O que mais posso dizer sobre a razão é que, uma vez raciocinando, é difícil aceitar a concepção de paraíso. Afinal, como seria o tão falado paraíso? Perfeito? Num lugar perfeito todos são perfeitos. E a imperfeição é a condição fundamental do meu raciocínio. Fatalmente, serei expulso de qualquer paraíso que me permita raciocinar. Não há razão no mundo perfeito.

O rei está vivo

Meu corpo é um reino. Eu sou o Rei. Carrego um reinado inteiro dentro de mim. Abrigo soldados, cavalos, torres, bispos, exércitos inteiros. Meu Estado tem órgãos e entidades que marcham sob uma pulsação orquestrada. Meu Estado tem centenas de vias, milhares de artérias, que não podem ser congestionadas. Preciso administrá-las e manter seus respectivos fluxos. Eu sou Rei do meu Estado.

Trabalho para manter a saúde do meu Estado. Manter a paz interna do meu Estado. Conservar, melhorar e ampliar as faculdades físicas e intelectuais do meu reinado. Meu objetivo é buscar o bem estar do meu reino. Para isso, tenho que saber administrar meu poder. Afinal, apenas eu, mais ninguém, sou Rei do meu Estado.

Diariamente, entro em contato com reis de outros reinos. Preciso cultivar uma boa relação com eles. Tenho fortes alianças firmadas. Uma boa relação internacional é extremamente importante. Há tempos meu Estado não entra em guerra. É prudente, entretanto, manter-me sempre preparado para o confronto, fortalecendo meus exércitos, adquirindo novas armas, qualificando minhas tropas. Nunca se sabe quais são as intenções do Estado alheio. Mantenho-me atento a tudo e todos. Meu Estado está sob minha responsabilidade.

Conflitos internos, porém, acontecem com frequência. Minha corte me auxilia e está em alerta para detectar qualquer espécie de crise, com a maior antecedência possível. Com uma boa gestão, as confusões são contornadas. Comumente, reinos aliados me dão apoio. Sou grato a todos esses. Aliás, a ingratidão e o orgulho barato já cansaram de derrubar castelos.

Para manter o controle interno, é fundamental ceder prazeres à base da pirâmide - corpo do Estado. Pão e festa na medida certa. É necessário também saber identificar as falhas da corte – topo da pirâmide. Assisti à ruína de muitos reinos por conta de “vistas-grossas” internas. Reis demasidamente complacentes ou demasidamente rigorosos para com sua corte jamais conquistaram respeito na comunidade internacional. Convém, portanto, estimular os atos da corte que vão de encontro ao princípio do meu governo. Minha vida é honrar meu Estado.

Dizem que os Deuses escolhem os Reis. E que eles passam nove meses em teste para serem “eleitos pelos Deuses”. Minha nação já foi bombardeada dezenas de vezes. Sofreu graves crises internas. Após anos de reinado, aprendi que, por mais que o inimigo dizime minhas tropas, assassine minha corte e até mesmo execute minha rainha, hei de honrar minha condição de Rei. Enquanto não exterminarem-me, um novo reino há de ser reerguido através de mim. No tabuleiro da vida, o jogo só acaba quando matam o Rei.

Por mais interessância

As pessoas que considero interessantes, invariavelmente, são pessoas interessadas. Interessadas por aquilo que existe, por aquilo que há, por aquilo que são ou podem vir a ser. Interessadas, principalmente, por tudo aquilo que desconhecem.

Como é chata a previsibilidade do “não”. Como é chato estar em companhia de alguém que sempre nega o novo. Que só conhece aquilo que lhe foi imposto. Eu não gosto. Eu os evito. Aprecio a companhia de pessoas pré-dispostas a se debruçar ao inédito, a respirar novos ambientes, dispostas a ressignificar um antigo conceito. Interessante, pra mim, é alguém que busca novos ângulos de uma mesma idéia. Porque sabe que as idéias são esféricas.

Assim como o fogo precisa de oxigênio, sem ventilação nossa áurea some. Aumentemos nossa superfície de contato com o mundo. Circulemos por novas pessoas, novas amizades, novos lugares, novas músicas, novas cores, novos amores. Se a novidade é um passo ao desconhecido, ele também é um colorido de possibilidades.

Às vezes, a alegria de algumas pessoas me deprime. Aquela alegria de quem só escuta música antiga, de quem só assiste o mesmo canal de TV, de quem compra o mesmo tipo de roupa, de quem tem medo de jogar coisas velhas no lixo. A repetição dos costumes gera câncer de espírito.

Interessante é a inteligência. E eu não acredito nas inteligências herméticas. Uma inteligência anti-social não me parece muito inteligente. Acredito na inteligência viva, enérgica, que se rende ao momento, que se entrega ao agora. Que observa e se adapta às mudanças, à natureza e à dinâmica da sociedade.

Até que me provem o contrário, interesso-me por todos. Sem exceção. Todos estão dentro de mim. E há um pouco de mim em todos. Interesso-me, sobretudo, por tudo aquilo que pode vir a corromper-me. Qualquer ser humano, minimamente interessante, deveria saber que aquilo que à primeira vista não o interessa deveria ser - imediatamente - a primeira coisa que lhe gera curiosidade.

Consegue ouvir minha voz?

Sou um vento, um descaminho que o levará para um novo caminho a partir de agora. Esse descaminho que lhe seduz e lhe faz caminhar comigo até aqui, através dessa leitura. Que faz, agora, você se desatentar daquilo que está ao seu redor. Que lhe faz ignorar o que está atrás de você neste exato momento. Que lhe cega para as palavras em si. E lhe faz capturar o sentimento dessa combinação de verbos.

Estou por trás dessa seleção maldosa de palavras. Desse código sagaz de signos, que lhe obriga a visitar este lugar imaterial e inédito que desenho, aqui e agora, em seu imaginário. De onde estou, posso ver você lendo minhas palavras. Ver sua pupila galgando para o seu lado direito. Estou nessa força que conduz seus olhos para a próxima palavra. O que lhe induz a querer conquistar cada frase. Sou isto que floresce neste seu terreno feito de curiosidade e medo. Sou o que acaba de lhe desnortear. Fiz-me ser o norte para você, agora.

Estou no lugar que ocupa sua mente no exato momento em que você lê esta frase. Eu sou essa voz muda que sussurra dentro de sua cabeça e vibra pelo seu corpo. Essa frequência silenciosa que, a partir de agora, vai reverberar pelo infinito do seu corpo. Alterando-o eternamente. Agora eu estou aí, dentro de você. Consegue ouvir minha voz? Suave e grave, aí dentro de sua mente? Aumente o volume da minha voz. Está me ouvindo agora? Agora sim. Neste exato momento, eu e você somos só um. Eis-nos aqui. Finalmente.

Finalmente, somos cumplicidade absoluta. Percebe? Agora quem está falando somos nós. Juntos. Porque nós quisemos assim. Agora, somos intercessão plena. Comunicação real. Transa pura.

Escritos Proibidos

É comum as pessoas escreverem, guardarem seus escritos e alegarem que escrevem para si. Temos o direito de não mostrar o que criamos. E eu também tenho o direito de ser curioso para saber o que motiva esses escritores anônimos a esconderem suas palavras. Respeito quem não quer expô-las, mas aqui vai a minha opinião sobre.

Uma idéia estúpida escrita num guardanapo rasgado de um bar imundo vale mais que uma idéia extraordinária guardada dentro da cabeça de um gênio de Harvard. Enfim, vou falar por mim...

O que escrevo, normalmente, provém de um canto escuro e gelado meu. Por isso, por mais que eu hesite em publicar algo, a necessidade de expô-lo vence, pois quando alguém se identifica com o que escrevi, este alguém abraça e aquece uma fragilidade minha qualquer. Exponho-me por uma necessidade insaciável destes abraços alheios. Exponho-me por carência. Publico-me porque não quero imaginar que só eu sinta. Quero que todos sintam. Publico-me por um egoísmo expansivo e ingovernável.

No fundo, acredito que boa parte das exposições são válidas. Existimos porque o outro existe. Existimos porque alguém nos reconhece como tal. Vivo em função do próximo. Sou porque você é. Você é porque eu sou. Deus é par.

Mas e você, escritor anônimo? Por que esconde suas palavras? Acha seus escritos ruins ou bons demais? Acha-os medíocres? Acha que publicando-os sua vida será exposta? Exposta para quem? Para alguém que você considera como sendo o quê? Superior, inferior ou indiferente a você? Na real, tratando-se de escrita, mesmo que você queira ser lido, raros vão lê-lo. Ler é ouvir. E no mundo atual, poucos lhe escutam.

Estão todos preocupados com suas respectivas vidas, seus respectivos umbigos, suas contas, suas compras. Enfim. Verdade é que poucos ligam para nossas idéias. Ninguém quer saber da nossa vida pessoal. E os que querem são insignificantes para o mundo. Se você acredita no que pensa, fala e é, publique-se. Sem medo.

Victor e o adesivo

Victor enxergava a palavra como um adesivo. Adesivo que poderia colar em qualquer significado. Um dia, Victor pegou o adesivo “deus” e colou num significado muito especial para ele. Victor guardava este significado - com a palavra “deus” muito bem colada - num lugar bem escondido. Victor não deixava ninguém se aproximar deste significado.

Desde as pequenas discussões na escola, Victor debochava dos colegas que optavam em colar o adesivo “deus” em significados comuns. E sempre evitava falar a respeito do significado que ele escondia. Não queria desgastá-lo, dizia pra si. Diferente dos seus colegas, Victor não atribuía tudo que acontece na vida a este seu significado. Segundo ele, se o seu significado significasse tudo, o mesmo passaria imediatamente a não significar mais nada.

Os colegas de Victor não entendiam aonde ele queria chegar com sua teoria que só ele entendia. Victor, no entanto, continuava debochando dos colegas que escolhiam colar "deus" em significados absolutamente comuns. Mas ele fazia questão de esconder o seu significado num lugar que só ele sabia que existia.

Não demorou muito e os coleguinhas transformaram Victor num significado e colaram a palavra “ateu” sobre ele. Victor achou o rótulo de seus colegas um tanto equivocado. Mas foi obrigado a respeitar. Hoje, Victor é um adulto. Continua com o antigo significado ainda muito bem conservado. Um dia, encontrou um dos seus antigos colegas da escola, e perguntou-lhe descontraidamente: “Olá! Como está seu significado do adesivo 'deus'?”. O velho colega mudou a expressão e respondeu que seu adesivo "deus" havia perdido a cola e que acabou perdendo seu significado, pois muita gente havia colocado a mão no mesmo significado para colar seus respectivos adesivos "deus".

Saudade do Presente

A finitude do meu corpo às vezes me causa estranheza. Todos os dias, eu acho. Todos os dias me pego num esforço físico que me desagrada. Que desqualifica um pouco tudo aquilo que eu sinto. E o que eu sinto é tão amplo. Só eu posso sentir. Só eu posso saber o tamanho da fé que deposito quando tenho fé. É de uma vontade bigbeniana. Assustadora.

Lembro da fé que depositei no exato momento em que atirava um dente de leite sobre o telhado da casa de veraneio de meu finado avô, anos atrás. É dessa fé que falo. Volta e meia – é raro – eu tenho lapsos dessa fé aguda. Dessa certeza absoluta, quase louca, de que tudo irá dar certo. De que tudo já deu certo só por tamanha contaminação de esperança imediata. Fé que recebo porque gero. Que gero porque permito. Que permito não sei porque.

Às vezes, essa fé, essa paixão pela vida, abre-me um frio pontual no estômago. É como se eu conseguisse me transportar diretamente ao êxito de fato, sem lá estar. Já teve essa sensação? Às vezes, a alegria dos loucos me assalta. É como se eu já estivesse vivendo com saudade do presente. Com se eu já estivesse lá, distante, no futuro. Num futuro no qual supervalorizaremos este agora. Como se eu tivesse uma informação muito privilegiada.

Essa sensação toda me faz querer viver tudo de uma vez. Mas como viver todos os pontos de vista estando em apenas um? Como viver todos os lugares ocupando apenas um? Como viver todos os amores tendo uma só vida? Como viver plenamente? Como expor-me de fato, se quanto mais me exponho, menos sabem a meu respeito, pois tudo que digo é sugestão de mim, não sou eu! Como me dizer de forma bruta e integral? Palavras nunca vão me exprimir.

Definitivamente, nossa condição de matéria não faz jus à profundidade de nossas paixões. Meu amor pela vida, pelos meus amores, e minha fé em mim, não cabem neste frágil e pequeno corpo. Eu já não me caibo e, qualquer dia desses, eu ainda explodo. Literalmente.

O Eu que não me pertence

Há um Eu dentro de mim que sou eu, mas que não me pertence. Nunca pertenceu e nem pertencerá. O fato é que sinto-me obrigado a satisfazê-Lo. Naturalmente. Devo-Lhe carinho, respeito, atenção. Preciso alimentá-Lo diariamente com o que Ele deseja. Com o que Ele me orienta fazer. Este Eu não usa palavra para expressar o que quer. Sinto-O e uso minha razão para traduzir, pra mim mesmo, Seu desejo.

Não posso ajudar ninguém antes Dele. Primeiro Ele, depois os outros e depois eu. Trabalho com entusiasmo para bem nutrir meu corpo que abriga este Eu que amo. Exercito minha razão para evitar ruídos entre nossa comunicação. Ele está em mim, logo, está por trás de cada passo que dou. Sempre consegue me provocar, fazer-me vibrar, fazer-me questionar. Sempre me obriga a evoluir.

Este Eu é a intrepidez e o amor em estado bruto. Não é um “eu iluminado”, pois nada pode iluminá-Lo, visto que Ele é a própria luz. Não é tocável, mas é real. Não é físico, mas eu sou a representação material Dele. Acredito, finalmente, que este Eu é o que me rege. Que Ele é o meu senhor. Acredito que este senhor é o meu pastor e que nada, nada me faltará.

Verborreia Maldita

Venho sentindo dificuldade (e preguiça) de me estender em minhas palavras. Aliás, nunca fui de escrever textos longos. Acredito, cada vez mais, que escrever é a arte de cortar palavras. E que dizer é a arte de cortar fala. Pois bem.

Uma dissertação qualquer – formal, ou não –, quando se torna demasiadamente explicativa, acaba me dando náuseas. Já notou como o excesso de palavras desvaloriza as mesmas? E isso acontece por uma questão matemática. Quando a gente fala muito, proporcionalmente, reduzimos nossas chances de manter a interessância do que está sendo dito. Ou seja, falando muito, no mínimo, não dirás o suficiente para fazer valer seu excesso de palavras. O preço que se paga isso eu não sei. Mas, naturalmente, suas palavras perderão peso. O que já é o suficiente para ser um desastre. Afinal, de que vale nossa experiência de vida senão pelo ganho de credibilidade do que dizemos? Senão pelo respeito adquirido em nossa palavra?

O dito ou o escrito em si não dizem nada. A comunicação mora no além do comunicado. Vibra na entrelinha. E quando alguém fala demais para me explicar algo simples, eu me sinto subestimado. Ao passo que, quando falam pouco para explicar-me o mesmo, sinto-me valorizado. Menos palavras, menos possibilidade de ruídos. Mais verbos certeiros, mais provocação, mais êxito.

As intensões partem da alma. As palavras dão o acabamento. Eis aqui um minúsculo manifesto por uma melhor pontaria e por menos disparos. Para que não se deperdice energia interior com a verborragia desvairada. Esforcemo-nos para não banalizar a Palavra. Não usá-Las em vão.

O otimismo do pessimista

Tava num dia daqueles que não vemos solução pra nada. Quando a paz se perde, quando o peso invade, o norte se esvai. Quando emoções agudas de amores antigos apertam meu peito, turvam minha visão, curvam meu ombro e pesam minha cabeça. Mas como escreveu Clarice, “perder-se também é caminho”. E de pensar que poderia caminhar pelo descaminho, metade da crise foi digerida.

Nesses momentos, em que minha energia vibra abaixo da média, é comum eu questionar o funcionamento da sociedade. É incrível como, apesar das barbaridades que os jornais estampam, a civilidade “até” que funciona de forma média. Absorto em minha atmosfera pessimista, parece-me mágico ver um carro parar num sinal vermelho e uma senhora atravessar na faixa. Na tristeza gratuita e na confusão mental, qualquer espécie de organização me parece sublime.

Curioso. É nos momentos de pessimismo que vejo que as coisas “até” funcionam, que a sociedade “até” consegue sobreviver em sua harmonia medíocre. Percebo que muita coisa, quiçá tudo, pode vir a dar certo. E chego à máxima: é no pessimismo que sou otimista. E é por isso que, desde criança, já sentia que as manifestações muito óbvias de otimismo, provavelmente, denunciam uma profunda desesperança.

Ode à Obra

Sim, eu admito que não me interesso muito pela companhia de pessoas que não criam algo, não fazem algum tipo de arte. Questiono a alegria ou qualquer espécie de satisfação plena daqueles que só trabalham para pagar suas contas e ponto. Sinceramente, em nada me apetece a presença destes. Definitivamente, eu não os admiro.

Por que aquele que ama cinema não faz um filme? Por que aquele que ama música, não toca um instrumento e grava uma música? Por que as pessoas que adoram escrever não escrevem um livro de fato? Por que aquele que gosta de desenhar, não pinta um quadro? Que seja por hobbie, mas seja. Que a obra demore pra sair, mais saia. Que ela seja apenas pra sua família ver, mas exista.

Vejo a sobrevivência do dia-dia gritando por arte, beleza, encanto, poesia, cor. Acredito sim que quem não deixa nada à posteridade, viveu em vão. Só morremos quando ninguém mais lembra da gente. E ações não bastam. Obras bastam. E não hesito em afirmar que o meu gênio se submete muito mais facilmente às obrigações cotidianas quando eu o alimento, criando uma arte.

Um só caminho

Com uma toalha, limpava meu cordão de prata para sair à noite. Durante a limpeza, tive uma visão. Vi que o cordão ficava mais brilhante a cada esfregão que eu dava nele. "Lógico", pensei. E as aulas de física e química do colegial logo me assaltaram a mente.

Ao friccionar a toalha sobre o metal, deixamos-o mais bonito, vivo. E isso acontece porque agitamos seus respectivos átomos. E agora vou além. Se o átomo é a menor composição da matéria e nós somos feitos de matéria, somos, de certo modo, átomos também. Nosso corpo reflete isso. Após uma série de esforços físicos, nosso corpo aparenta estar mais enérgico, pulsante, energizado mesmo. É real. Quando movimentamos nosso corpo, ele ganha mais vida. O processo é químico.

Igualmente meu cordão, nós também brilhamos na medida em que nos movimentamos perante a vida. Não podemos esquecer que também somos pequenos átomos deste imenso universo. A ciência prova que nossa motivação, nossa energia interior, é capaz de agitar nossas moléculas e nos fazer "brilhar". Vibremos, movimentemo-nos, geremos luz. Façamos nosso Eu interior vibrar com força.

Eis uma fórmula científica (químico-física) para quem busca uma vida positiva. Esta simples mecânica de geração de energia a partir da agitação dos átomos me faz pensar que a “energia negativa” é um grande equívoco. Pois o que seria “energia negativa” senão a ausência de movimento, ou seja, ausência de energia? Portanto, só há um caminho, um "lado": o da energia. E se a energia é o parâmetro, a negatividade não existe, pois ela é precisamente o “nada”.

À Coxia

Com a licença dos redatores e dos leitores da Agência Rio, introduzo-me como o novo colunista deste jornal. Em memória aos colunistas Mário de Moraes (falecido em 25/04/10) e meu avô Herval Faria (falecido em outubro de 2009), falarei sobre minha concepção de vida/morte. Tentarei ser breve e filosófico.

Recuso-me a igualar minha vida ao meu tempo de vida. Viver é viver bem e ponto. Não há razão nem emoção para focarmos na longevidade da vida. (E eu juro que existem muitas pessoas que só vivem para viver muito). Esta lógica de qualificar a existência apenas em sua dimensão quantitativa vai diretamente contra a vida.

As pessoas insistem em apegar-se a vida em si e se economizando definham, mendigando existência. Repare, a vida exige grandeza e missão cumprida. Morramos invictos com nós mesmos. Morramos redondo, cumpridos, vingados. E não precisamos chegar aos 120 anos pra isto. Vivacidade é a palavra-chave.

O que seria a imortalidade senão a banalização da vida? A vida só faz sentido sob a perspectiva da morte. É preciso digerir naturalmente a necessidade de namorar o próprio fim. Sua vida é uma obra de arte e a morte é o fim deste imenso espetáculo. Permitam-me a dialética: saber viver é saber morrer.